Entrevista com Gilberto Meirelles, presidente da Abrecon

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Segundo levantamento da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), são produzidos 100 milhões de toneladas de entulho de construção por ano. Estima-se que 5% dessa soma é entulho não mapeado. Dessa quantidade, em avaliação otimista, menos de 10% é reciclada em usinas móveis ou fixas.

Obras de grande porte em geral contratam serviços de reciclagem no local e, assim, eliminam gastos com transporte. Já em obras menores costuma compensar mais separar os resíduos por tipo e enviar o material para a empresa recicladora. Na entrevista a seguir, o presidente da Abrecon Gilberto Meirelles traça um cenário do mercado de reciclagem e aponta as principais dificuldades para a ampliação dessa prática nas obras.
Qual o panorama atual do mercado de reciclagem de Resíduos da Construção Civil (RCC)?

Os Sindicatos da Indústria da Construção (Sinduscons) e os governos atuam de forma estratégica, porém perigosa para o setor que a Abrecon representa, pois fomentam a implementação de novas usinas. Para as construtoras, isso significa preços menores, pois há mais locais para destinar os resíduos; para as prefeituras, significa o atendimento à resolução 307/02 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e ao Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Porém, não se vê consumo desse material e nem perspectiva de aumento de preço do agregado reciclado, o que levaria ao equilíbrio financeiro em médio prazo. Afinal, uma recicladora é viável apenas se tiver matéria-prima de excelente qualidade e com predominância de concreto. Então, para haver coerência, o agregado reciclado deveria ser mais caro que o natural, o que forçaria a redução do valor da destinação.

Nesse contexto, qual o papel das construtoras?

Se elas querem reduzir o preço pago pela destinação do entulho, deveriam se esforçar mais para consumir [o agregado reciclado]. Da mesma forma, as prefeituras, que são responsáveis pela fiscalização da destinação do entulho, também deveriam consumir.

O que incentivaria o aumento do consumo de agregados reciclados?
O Estado de São Paulo tem uma capacidade instalada para reciclagem de Resíduos da Construção Civil (RCC) da ordem de 800 mil t mensais. Entretanto, são comercializadas cerca de 200 mil t por mês. Desse levantamento, realizado pela Abrecon no início de 2012, concluímos que a iniciativa privada está preparada para atender grande parte da demanda por agregado reciclado. Bastaria haver a exigência de consumo de agregado reciclado na proporção de 30% em todas as obras, públicas e privadas, que a equação estaria resolvida para o Brasil. Com uma ponta compradora forte, o entulho passa a ter valor e não mais seria depositado de forma clandestina.

Se existem leis prevendo preferência no uso de agregado reciclado, por que as construtoras não estão comprando maiores volumes?

A distância de leis e decretos para a realidade é enorme. Na prática, a legislação não é devidamente regulamentada ou fiscalizada. É comum ouvir de mestres de obras ou engenheiros a seguinte frase: “usar agregado reciclado dá trabalho”. É essencial entender o ciclo da construção civil e seus impactos quando olhamos os itens areia, pedrisco, pedra, rachão e bica corrida, desde sua origem nos portos de areia e pedreiras até sua destinação final, pois soma-se à redução do custo das obras o ganho de minimizar passivos ambientais futuros.

Quais as lacunas das normas que regulamentam o setor, como a resolução do Conama?

As leis que existem podem ser aprimoradas. Por ser um setor novo, existem muitas lacunas e, a meu ver, o foco deveria estar em fazer acontecer o que existe hoje e, paralelamente, aprimorar a legislação. A Resolução Conama foi um marco importante, funcionou como uma cenoura que se coloca para que os empresários e o poder público nas esferas estaduais e municipais corram atrás. Mas o mercado não tinha esse apetite na época. Sete anos depois, após praticamente nada ter sido feito, o PNRS trouxe um novo sabor, tornando o setor um pouco mais apetitoso.

Qual foi o diferencial da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS?

Certamente foram os prazos claros para a realização dos Planos Integrados de Gerenciamento de Resíduos em 2012 por parte dos municípios, além da meta de que, até 2014, todo resíduo passível de ser reciclado não seja mais destinado a aterro para deposição final. O que assusta é a qualidade desses planos e a dúvida sobre quem está capacitado para avaliar sua exequibilidade, além da questão da origem e destino dos recursos.

Como o poder público pode interferir no setor empresarial para estimular a reciclagem e reutilização de materiais?

Tanto o Governo Federal quando os Estaduais e Municipais poderiam incentivar a cadeia da reciclagem na construção civil obrigando seus contratantes a utilizarem o agregado reciclado, por meio de editais e licitações. De acordo com a Resolução Conama 307/2002, todo resíduo inerte deve, obrigatoriamente, ser enviado a uma usina de reciclagem de resíduos da construção ou aterro de inertes.
Da caçamba da obra à nova utilização, qual o caminho do resíduo da construção?

Tudo se inicia na extração mineral, pois os agregados reciclados são minérios. Uma vez aplicados nas obras, em algum momento futuro servirão de matéria-prima para reciclagem. Entre o gerador (construtoras) e o destino final (aterro), temos as figuras do transportador e do reciclador. Para que o produto volte à construção civil, precisamos identificar transportadores idôneos e que cumpram as leis, fazendo com que o material chegue às recicladoras e desta forma feche a cadeia de valor do produto.

Quais os pontos críticos desse processo?

Transformar “lixo” em produto com valor é tarefa dificílima e que exige conhecimento profundo da atividade. Poucas empresas têm essa expertise. A triagem é o ponto chefe do processo e está presente em todas as fases: separação na geração, gestão da coleta, gestão no aterro e na área de reciclagem.

Quais erros comuns as construtoras cometem na destinação de resíduos?

Contratam planos de gerenciamento de resíduos, porém não os monitoram de forma eficaz. Assim, cumprem exigências burocráticas, mas não se preocupam em rastrear os resíduos que geram. Por outro lado, o poder público, que deveria fiscalizar a destinação ilegal, pouco consegue fazer. Tal deficiência fez surgir no mercado uma nova modalidade de serviços, que denomino de gestão operacional de resíduos. Ou seja, empresas gerenciadoras que garantem a execução desses planos de gerenciamento.

Qual a previsão da Abrecon para crescimento das empresas recicladoras?

Estimamos que até 2014 sejam mais de 600 usinas de médio porte, com produção de 5 mil t/mês, o que significa quadruplicar a produção atual. Para viabilizar uma recicladora sem subsídios, temos de observar o volume gerado pelo município e o desenvolvimento econômico da região. Depois, analisar a qualidade do resíduo que chega à recicladora. Com esses dois fatores entendidos – quantidade e qualidade – podemos saber se a usina é viável ou não. Cidades abaixo de 100 mil habitantes terão muita dificuldade em se estabelecer com usinas privadas. Acima de 300 mil habitantes, é viável uma usina se houver fiscalização, se a qualidade do entulho for adequada e se houver consumo constante.

É possível estimar valores para o agregado reciclado?

A conta é simples. Para que uma usina de porte médio, na faixa de 4.500 t/mês, tenha sustentabilidade econômica, é preciso praticar um valor médio de R$ 40,00 por tonelada. A experiência de mercado demonstra que 40% desse valor deve ser a receita pelo recebimento do resíduo e os 60% restantes vêm da venda de agregado reciclado. Pensar em uma usina de reciclagem de RCC sem o mix de receitas é uma aventura empresarial, salvo se garantidos materiais em quantidade e qualidade satisfatórias e sua compra a R$ 40,00 t na usina.

Como o conceito de logística reversa pode facilitar o retorno dos resíduos às obras na forma de agregados?

Temos diversos exemplos de empresas que contrataram serviços de reciclagem, levando entulho para a unidade de beneficiamento e, no mesmo caminhão, transportando de volta para a obra o produto reciclado. Com isso, é possível reduzir 3.500 t/ano de CO² em uma usina média e ainda contribuir para a mobilidade urbana ao diminuir o número de caminhões e a distância percorrida por eles.

É possível dizer que a logística é o que mais encarece o processo de reciclagem? Os postos de reciclagem são afastados dos centros das cidades?

Não necessariamente. Além dos pontos de descarte de entulho, oficializados pela prefeitura, há empreendimentos chamados Áreas de Transbordo e Triagem (ATTs), onde geralmente os resíduos são selecionados e destinados aos recicladores, tais como usinas de reciclagem de entulho e cooperativas de coleta seletiva. Porém, além de uma estrutura inteligente de coleta, a atividade deve ser comparada em termos de distância com pedreiras e portos de areia que, estes sim, estão cada vez mais distantes dos centros urbanos. Nossa vantagem competitiva quanto à localização é enorme e a dificuldade maior está em identificar áreas licenciadas ou licenciáveis.

Fonte: PINI Web | 04 de setembro de 2012

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